23 agosto 2016

De Renaul Clio até ao Sahara Marroquino

  

   Depois da nossa primeira viagem ao nosso "vizinho" do sul Marrocos, no mês de Abril de 2010 em que percorremos de carro, vindo de Portugal os principais pontos turísticos do país, ficámos com uma sensação de "água na boca". Sentimos que faltava algo e estivemos lá tão perto.
   Essa viagem foi como que uma introdução. Por isso, às vezes sentimos também vontade de voltar onde já fomos, o local pode não mudar, mas nós sim, estamos diferentes, e poderemos inclusive olhar para as mesmas coisas e ver agora algo completamente diferente, ou então, como já lá estivemos, o nosso olhar não se dispersa tanto e descobrimos detalhes invisíveis à luz do primeiro encontro.
 
 
Cá estamos nós outra vez...6 meses depois.
 
   Bom, mas filosofias à parte o que nos trouxe de novo apenas 6 meses depois (sim, tivemos "necessidade" de voltar 6 meses depois)...foi que queríamos ir até ao deserto.
  
   Confessamos que não somos muito de expedições, aquelas expedições em que saem caravanas de Jeep's todos em filinha pirilau para "fazer umas pistas no deserto" como costumam dizer.
   Não temos nada contra, nem temos de ter, apenas não nos revemos nisso, o que até não quer dizer que um dia não o possamos fazer, mas para já gostamos de andar ao nosso ritmo, ou seja ir para onde quisermos, e quando quisermos ir.
   Se gostar de expedições até aconselhamos a Landventure que as organiza não só para Marrocos mas também para destinos como Islândia, Madagáscar ou até Costa Rica por exemplo, é malta altamente profissional e conhecedora absoluta de todos os locais por onde trabalham.

   Posto isto e não tendo Jeep, desta vez só tínhamos uma alternativa, ir no nosso carrinho. Mas levar o nosso carro até ao deserto ? Sim, é perfeitamente exequível ir num carro "normal" até ao deserto do Sahara, aliás, até de transportes públicos é possível, basta dar uma olhadela no site da melhor companhia de autocarros marroquina e depressa percebemos que dá para fazer Marraquexe-Merzouga em autocarro, basta ver aqui. São bastante confortáveis e normalmente têm ar condicionado, o bilhete Marraquexe/Merzouga custará à volta de 22€.
  
 NOTA: Merzouga é uma pequena aldeia mesmo ás portas do deserto, fica mesmo no "sopé" das dunas de Erg Chebbi.
  
   Sabíamos então que a estrada asfaltada chega muito perto das dunas de Erg Chebbi em Merzouga que são as dunas mais próximas de Portugal,  ou seja estão reunidas todas as condições para avançar ! Com a pesquisa até acabámos por descobrir que é mais perto ir até ao deserto do Sahara do que ir até Paris!


Sim, deixei a Carla conduzir em Marrocos

   É uma viagem cansativa, mas com o entusiasmo de saber que vamos estar no deserto pela primeira vez, não há cansaço que nos derrote. Foi um pouco como o pessoal que vai ver o mar pela primeira vez. Este era o nosso mar.

   Claro que ficaríamos mais uma vez a descansar em Marraquexe mas não fomos directamente de Leiria, parámos para pernoitar uma noite nas redondezas de Rabat, a capital.
   Sempre por auto estrada, chegámos a Marraquexe e fomos logo para o nosso alojamento preferido, a Riad Losra. De fácil acesso a quem traz carro, continua a ser a melhor opção para nós em qualidade/preço. Preferimos sempre ficar nestas casas típicas (Riad) a ficar em hotéis, em primeiro porque ficam todas bem pertinho do centro histórico e depois porque como que nos "transportam" directamente para viver um pouco o exotismo do país.

Já instalados fomos logo a "correr" jantar, onde ? Pois claro à praça Djema el fnaa. Estávamos esganados com fome! Mas estamos bem entregues.
No dia a seguir bem cedo partiríamos para Ouarzazate.

Comida boa das banquinhas da praça



  


DIA 2

  Dormimos que nem uns anjinhos apesar das rezas madrugadoras que ecoam pelas ruas.
Fazemo-nos à estrada. Tomamos o sentido de Ouarzazate, ficaremos mais uma noite aí antes de chegar ao Sahara. São 200km na N9 de uma estrada que traça a meio a cordilheira do Atlas num percurso lindíssimo de montanha, descendo depois até ao planalto que antecede o deserto.
  
Desfiladeiro Tizin Tichka
 
   A seguir à passagem lá bem no alto, e quando começamos já a descer paramos para almoçar! E que almoço! Foram só as melhores Tagines comidas até então.
  
 
 
 
 

Esta foi eleita a melhor! Tagine de frango com alperce!
   A viagem prossegue, a paisagem vai suavizando e passamos a grandes planícies sem deixar de ver montanhas cobertas de neve bem ao longe à nossa esquerda neste sentido. Para nós, esta é a principal imagem de marca deste país, tem tudo! Em 500km passamos de praia para a montanha e depois deserto. E uns 200km antes do deserto conseguimos avistar vastos palmeirais com montanhas cobertas de neve ao fundo e as areias do deserto lá ao longe... Querem melhor que isto ?
 
O fotógrafo é fraquinho mas a máquina também, no entanto com esta paisagem esquecemos isso, não?
   Fazemos uma paradinha em Ouarzazate, sobretudo porque fica perto de Ait Ben Haddou que é património UNESCO e onde foram filmados vários filmes muito conhecidos, desde O Gladiador até ao recente Príncipe da Pérsia passando pelo Reino dos Céus.
 
   Ouarzazate é muito conhecida principalmente pelos seus estúdios de cinema e pelo Ait benhaddou mas só por si é uma média cidade que vale bem a pena conhecer, e até quem sabe poder ficar alojado numa casa que é propriedade de portugueses, a Dar Rita.
   Fica a caminho, e pode aproveitar para dar um relax da viagem.
Um nota muito importante, se fizer uma pesquisa rápida no Google maps, vai chegar à conclusão que poderá não passar por aqui para chegar ao deserto vindo de Portugal.
 
 
 
Ksar Ait BenHaddou
 
Ait Benhaddou ao fundo
   Ouarzazate tem muitas e boas opções de alojamento, pode ver aqui. Como poderá ser só uma noite pondere ficar num sítio cómodo mas simples, e sem grandes luxos a nosso ver desnecessários, irá ter muito por onde escolher. Se quiser conhecer melhor a cidade, opte por um sítio perto do centro, e dê uma voltinha à noite pela praça principal onde poderá jantar e relaxar antes de partir.
 
Rua de Ouarzazate junto à Kasbah Taourirt
DIA 3
 
   Chegou o dia, sabíamos que se tudo corresse sobre rodas, literalmente, daí a 3 horas estaríamos a brincar nas areias do Sahara. Antes de sair fizemos uma pesquisa apenas para decidir onde ficar a dormir, não foi difícil, optámos pela Auberge du Sud. Tem tudo o que é preciso e mais ainda! Pode dar uma olhadela clicando aí atrás, tem toda a informação necessária, passeios em Jeep pelas dunas, moto 4, e pelo meio pode até comer uma pizza berbere enquanto assiste a uma dança tradicional africana.
   
  Fazemo-nos à estrada e seguimos pela N10 em direcção a Skoura, mais uma vez aqui à saída de Ouarzazate tem duas opções, optámos por esta só porque...sim. Estamos a 350km das areias.
   O entusiasmo cresce à media que nos apercebemos que estamos a chegar, pelo meio, fazemos umas paragens, a principal para fazer um desvio de alguns quilómetros e passar um pouquinho nas Gorges du todra, afinal foi um pouco por isto que escolhemos esta estrada.
 
 
 
Gorges du Todra
 
 
 
Estão a ver o mesmo que nós ? Esse pessoal aí a fazer escalada ?
 
   Pedimos desculpa pela qualidade das fotos, mas à época tínhamos uma máquina normalíssima que custou 90€ na FNAC...e nem sonhávamos um dia publicá-las num blog, mas demos o nosso melhor.
 
Pelo caminho irá encontrar locais para almoçar. Foi o que fizemos.
 Agora sim, última etapa até Merzouga!
 
 
Hum...Carla! Já cheira a deserto
Finalmente após mais alguns quilómetros, avistamos dunas! A excitação foi tal que nem nos lembrámos de parar o carro para tirar fotos, foi mesmo assim, em andamento...
 
Uau!! Xico, Xico olha o deserto !!- Gritou Carla.
 
Já mais calmos...
 
 
Por momentos voltámos a ser crianças, e foi tão bom...
Vai havendo sempre placas a indicar Merzouga, mas ainda antes de chegar irá encontrar uma placa com indicação da Auberge du Sud, durante alguns km a estrada passa de asfalto para terra batida, ou, cascalho batido, devagarinho, o nosso Clio portou-se muito bem!
 
 
 
Nem sequer éramos os únicos a andar por ali em viatura ligeira, ao chegar ao albergue o parque automóvel era muito variado.
 
Entrada da Auberge du Sud
O resto da história é o que deverão estar a imaginar, passeio de camelo, dormida nas dunas, passeio de Jeep. Deixo-vos agora apenas com o relato fotográfico (na nossa máquina de 90€) agradecendo sobretudo ao nosso Renault Clio 1.9 Diesel que nos proporcionou estes dias de mil e uma noites.
Até breve !!
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 Partimos...com a "auto-promessa" de voltar, agora com mais um membro da família para desfrutar das areias... Venha até ao deserto do Sahara, é só mais um pouquinho depois do Algarve.
 
Carla, não estejas de burro! Havemos de voltar...
 
Mas que Zarabelho...à direita.
Marrocos, Outubro de 2010


22 agosto 2016

TOUBKAL: Montanha mais alta do Norte de África, sem planear.

Força Carla! Está quase...!

Porventura não há um post nosso que dê mais sentido ao nome deste blog do que este.
Confuso ?
   Na nossa 2ª viagem a Marrocos em que percorremos o país TOTALMENTE de transportes públicos e táxi, decidimos ao fim do 3º dia subir à montanha mais alta do norte de África, o Jbel Toubkal.
   Sem pesquisa prévia, apenas uma leitura rápida no wikipédia e informações recolhidas junto do pessoal da Riad Matham no dia anterior. Siga, nem é tarde nem é cedo, é agora.
  
 
Até a foto ficou torta...
 



   Era manhã bem cedo, depois de um farto jantar surpresa (Carla fazia anos) e, principalmente 2 garrafas de vinho...marroquino (sim há vinho marroquino) a cabeça estava um pouco pesada, mas nada que uma boa "caminhada" numa montanha de 4mil metros de altitude não resolva...

   Despedidas da Riad cumpridas lá rumámos nós até à gare rodoviária de Marraquexe, afim de apanhar não um autocarro, mas sim um táxi até IMLIL que fica a cerca de 70km.
   Foi dura negociação com o Táxi, mas chegámos a um preço por nós considerado justo. Poderíamos pagar menos se tivéssemos decidido partilhá-lo, mas não poderíamos esperar.
   Porquê IMLIL ? Porque Imlil é a vila que serve como base principal a todos os montanhistas e caminhantes que pretendem subir ao Toubkal.

A caminho do Toubkal

   Chegámos a Imlil já muito perto da hora de almoço, se não fossemos um pouco...100rota o que faríamos ? Almoçar, descansar, pernoitar, e no dia seguinte sairíamos bem cedo para conquistar o "monte". Mas qual quê ?? Somos 100rota e somos a Carla e o Francisco, almoçamos e subimos !!



   Imlil está completamente "feita" para acolher e orientar os caminhantes que por aqui andam, e são bastantes. Irá ser assediado se não tiver guia para comprar os serviços de um, se não quiser, basta dizer que não e siga em frente.
  
   Achámos fácil encontrar o caminho, basta perguntar a alguém que não esteja a vender os seus préstimos como guia, senão vai ficar a saber que você não sabe, e não irá largar enquanto não o contratar, pergunte ao vendedor de uma loja ou mesmo no restaurante, ou então não pergunte nada, e siga o instinto, ou por último e talvez uma boa opção pergunte aos outros caminhantes que venham em sentido contrário.

    Se quiser pernoitar aqui não faltam soluções, contudo poderá sempre dar uma olhadela prévia no site Booking.

   Almoçar sim, isso era necessário, e pretendíamos encher bem a barriguinha para subir, subir !!Há muitas opções, normalmente eles têm sempre as Tagines na rua a cozinhar, o que dá um aroma bestial na rua. Escolha aquele que lhe parecer ser melhor no seu critério.

   O nosso objectivo seria alcançar o refúgio ao fim do dia que fica situado já quase no cume e pernoitar aí...
  
  
  
   Escolhemos um pequeno restaurante de rua mesmo antes de iniciar o percurso já quase á saída da vila. Não nos arrependemos mesmo nada, pagámos 6€ por duas Tagines maravilhosas de carne de vaca !!


 
 
 
 


   Pode-se dizer que rapámos tudinho!!
   Nestes locais não vale a pena pensar muito de "onde vem isto", de "onde vem aquilo", "será que foi lavado", "será que não foi..." Desde que esteja cozinhado e beba água engarrafada tudo bem, nunca ficámos doentes em Marrocos, tenha só cuidado com a água e com ovos, de resto tudo ok.

   Agora a sobremesa, bem mais custosa, que é a nossa aventura montanha acima. Pé ante pé lá vamos nós.

Aldeias de montanha

   Ainda não tínhamos meia hora de percurso já estávamos fascinados com este dia. Rodeados de altas montanhas e pequenas aldeias por ali espalhadas, ecoam pelos vales fora as orações das mesquitas, foi um momento especial vivido por nós ali dois sozinhos pequeninos no meio daquela grandiosidade.



Acontecesse, o que acontecesse já não tínhamos dúvidas que tinha valido a pena vir até aqui.






   Estávamos bem. Os primeiros km's são em bom piso e subida pouco acentuada. Mas não há bela sem senão. Após esta primeira fase segue-se até uma descida que nos leva ao leito de um rio. Aqui é plano um bom par de kms, a dificuldade maior vem de seguida.





   Estamos num vale, e como vale que é,  é um vale fértil, serve para os habitantes destas aldeias próximas fazerem seus cultivos. Reparámos sobretudo que havia muitas árvores de fruto, nomeadamente macieiras. Que bom !! Servia de sobremesa e de escova de dentes !!




Maçã vermelha

Maçã amarela, é só escolher !
   Continuamos, apesar de ter bastantes pedras o percurso aqui é plano. Avistamos cada vez mais caminhantes, não detetamos portugueses. Reparamos também que muitos marroquinos descem com suas mulas carregadas de mochilas, calculamos ser dos caminhantes que na descida e na subida contratam os seus serviços.






   Estamos no início de  Setembro mas o dia está bom, e aqui o dia estar bom é estar encoberto e sem muito calor, à medida que vamos subindo a temperatura no entanto desce.
   A fase que nos custou mais foi desde o final do leito do rio, é verdade que é uma parte curta mas bem difícil, a inclinação é brutal e o caminho está cheio de pedras. Foi duro, mas ultrapassámos, temos praticamente 2h de percurso feito de um total de 5h/6h até ao refúgio a andar bem.





   Começámos a perceber que não chegaríamos ao refúgio neste dia. Esta parte da caminhada revelou-se difícil e parámos bastantes vezes para descansar. Será que haveria mais algum sítio para dormir ?? Já não víamos ninguém a subir...só a descer...

Conseguem ver lá ao fundinho?? Vão a descer..
 
   Estamos a chegar ao fim da tarde, 4h de caminho e não sabemos onde vamos dormir ainda, questionamos se não será melhor voltar para trás, o problema é que se voltarmos para trás vamos provavelmente apanhar a noite e não temos luz artificial, decidimos então avançar mais um pouco.
 
   As aventuras são assim mesmo, roçam o risco, e aqui estivemos à beirinha de dormir ao relento que era o pior dos cenários.
   Mas não foi preciso, ao dobrar de uma "esquina" da montanha avistamos um lugarejo, alívio foi o que sentimos, pelo menos telhado iríamos ter, nada mais importava.
 
Sidi Chamarouch
 
   Esse lugar é Sidi Chamarouch. Pelo que percebemos é apenas um local onde foram construindo pequenas lojas e sítios para comer, ou seja é uma base de apoio aos caminhantes, e que devido à distância das aldeias os comerciantes acabam por dormir ali.
 
Não deixa de ter uma Mesquita, e bem interessante !
 
Não desesperes Carla !! Estamos a chegar...a Chamarouch hahaha
   Sendo isso ou não, estávamos safos. Ainda por cima notámos bem a diferença de temperatura assim que o sol se pôs, é que já estávamos bem alto, perto dos 3mil metros.  Descobrimos que não havia aqui alojamentos tipo pousada, ou quartos propriamente ditos, só mesmo no refúgio..."Oh my god..." já não tínhamos tempo de chegar ao refúgio !
   Agora restava-nos falar com alguém para nos dar guarida em jeito de caridade. Em último caso pernoitaríamos na Mesquita (apesar da proibição de estrangeiros entrarem em mesquitas).
 
  Com alguma insistência lá descobrimos um senhor que tinha uma espécie de quarto...mas era um quarto especial, tinha sido (suponho) curral das cabras, adaptado agora a quem necessitasse de apoio urgente, o que era o caso. 
 
   Tinha muitas mantas já usadas, creio, centenas de vezes... o frio era o mesmo que cá fora, à excepção do telhado que evitava cair orvalho para cima de nós.
   Dormimos bem agarradinhos, ou melhor estivemos ali bem agarradinhos, cheios de frio !! Adormecíamos devido ao cansaço e acordávamos logo de seguida devido ao frio, e foi assim a noite toda. Que brutal experiência ! Não poderia ter sido mais romântico.
 
Entrada do nosso resort de montanha !
Bem bom, o nosso quarto !
   Apesar do cansaço estamos felizes, é outro dia, sobrevivemos! Ainda nem amanheceu totalmente e já estamos de partida. Queremos aquecer o corpinho, e a melhor forma é andar, e andemos !!
 
 
   Está tudo a dormir ainda, excepto as cabrinhas que por ali vagueam. Temos a barriga vazia, a tagine já se foi há muito. Seguimos caminho, para cima pois então ! Somos portugueses, somos rijos !
 
   Andamos um pouco, e à saída de chamarouch paramos num local que nos parece ser um sítio bom para comer algo, tem um senão, o senhor ainda está a dormir.
 
Restaurante Robin Hood, no Toubkal...
   Esperamos um pouco a ver se ele acorda, ouvimos lá dentro o seu ressonar através de uma porta de ferro.
 
 
 
   Depois de uma longa espera e com o estômago vazio, perdemos a vergonha e batemos à porta. O senhor responde, manda-nos entrar num francês melhor que o nosso. Entramos e explicamos o caso, ele ainda com olhinhos de sono, compreende, e simpaticamente oferece-nos chá, e pão com azeite. Queremos pagar mas ele não aceita. Deixámos uma nota sem ele se aperceber, não faz mal, há gestos que merecem o nosso agradecimento seja de que maneira for, e essa foi a melhor forma por nós considerada na altura.
 
 
   Pomos "pés à obra". Carla está melhor do que eu !Aqui é a subir mas nem por isso muito acentuado. O sol finalmente já espreita através das montanhas. E dizemos finalmente porque depois de uma noite daquelas cheios de frio queríamos aquecer com o solinho! E se aquecemos!
 
 
   Tudo vai bem. Sim, tudo vai bem, até ao momento em que Carla que estava cheia de força e sofre um revés. Uma mula cruza-se connosco, Carla distraída a olhar para a paisagem e eu para outro lado não nos apercebemos da aproximação de uma mula cheia de pressa a descer. Conclusão, acidente ! A mula toca por trás Carla com os seus cestos, e Carla tropeça e bate com o joelho mesmo em cheio numa esquina de uma pedra...
 
Cuidado com as mulas a alta velocidade !! Não foi esta mas poderia ter sido !
 
   Paramos. Carla fica queixosa. Pois é, temos de regressar, não dá mais para subir, Carla está bem dentro do possível, mas para uma subida desta exigência poderá agravar uma eventual lesão.
 
   Damos meia volta e estamos a descer de novo. Carla tem um pouquinho de dores mas na descida aguenta bem.
 
Força Carla !
Apesar da lesão andamos depressa, alivio a mochila da Carla fazendo eu de mula e avançamos a bom ritmo.
É impressionante a diferença de tempo que se demora entre subir e descer, a descer fizemos tudo em pouco mais de 2 horas, incrível.

 
 
 
   Quando damos conta estamos de volta ao vale das "maçãs". Agora já com os pés bem quentinhos e bem a tempo de um bom repasto de novo em Imlil para recarregar baterias.
 
 
 
   Não nos arrependemos nem um pouquinho destes 2 dias, foi uma experiência e tanto apesar de não atingirmos o cume, fica para a próxima, assim teve mais piada.
 
   Pesquisamos sempre tanto previamente sobre os locais a visitar, que por vezes chegamos lá e não acontece nada...ficamos sem histórias para contar, apenas dizemos que fomos aqui ou ali , não há imprevisto e os imprevistos por vezes criam-nos histórias para contar. Ou então defraudamos as expectativas, ou no mínimo não nos impressionamos com nada ,até porque já o nosso cérebro processou informação e avaliou o local, mesmo que inconscientemente.
    
   Evitamos isso agora, esta é a nossa forma de viajar, pesquisamos só o estritamente necessário, assim obriga-nos a descobrir ao vivo. Evite saber tudo e mais alguma coisa, ver vídeos ou fotos, ou o melhor sítio para comer, ou dormir, isso é tudo relativo e depende dos nossos estados de espírito. Tire dicas sim até porque senão não lê blogs do género hehehe, mas dentro do possível, vá e deixe-se levar.
 
O próximo post será acerca de uma ida ao deserto do Sahara de... Renaul clio, até já !!